Por que alguns intelectuais estão tão empenhados em atacar as Cotas Raciais?
- Trata-se da continuação de uma longa tradição da academia brasileira.
- Desde o século XIX, ela busca o disciplinamento da identidade negra, constituindo-a num campo de observação demarcado pelo silêncio e pela fragmentação.
- Há uma linha entre política científica, voltada para a manutenção de estudos de autores e posições teóricas que defendem um mito da democracia racial, e a vocação política desses intelectuais para impedir movimentos de reivindicação. [1]
Nesses discursos, o tema da identidade negra tem sido objeto de uma postura marcadamente essencialista.[2] - Por que?
- Enquanto todas as identidades são contestadas, alguns acadêmicos brasileiros apegam-se a uma identidade de pesquisadores (críticos livres, cientistas sociais, e por aí vai à ladainha) como se tal identidade fosse uma essência, um lócus que pairasse além e sobre as identidades.
- Julgam que podem dali problematizar as identidades dos movimentos sociais sem que as suas próprias identidades sejam problematizadas.
- No Brasil. a identidade de pesquisador se constituiu num refúgio da branquidade da academia, transformando-a em valor científico. [3]
Tal postura encontra no movimento negro e na atuação do Estado brasileiro os seus vilões. - O movimento negro teria criado, em suas reivindicações (ou por causa delas), uma identidade inexistente.
- Ao se dizer negro, o militante inventaria a idéia (da diferença) da separação da humanidade em raças e, portanto, o racismo.
- Acusam-no, desse modo, de não ser capaz de se livrar da idéia de raça, criada pela ciência estrangeira, porque insiste num combate ao racismo, via organização de um movimento fundado na raça. Pior, ele é acusado de tomar emprestado o discurso da raça e da negritude do estrangeiro (americanos), deixando-se levar por essa ilusão.
- O movimento contra as cotas não quer discutir aquilo que observamos todos os dias quando abrimos os olhos: as desigualdades racais e o racismo.
- Ao contrário, querem debater a "identidade" dos negros e do país. Mas o que isso significa?
- Do ponto vista sociológico, esse deslizamento em direção ao tema da “identidade negra” ou "nacional" expressa as tendências das políticas neoliberais implantadas em outros países em construir “não-identidades”, capazes de criar um indivíduo adequado a submeter-se aos ditames do mercado de consumo e de impedir que as “identidades” sirvam de ancoragem para a ação política de grupos excluídos.
- O movimento contra as cotas representa a crise das relações de poder que constituíram, fora e dentro da academia, o monopólio dos discursos sobre o “Outro”, os quais até bem pouco tempo não contava com interlocutores negros e indígenas.
- O principal efeito desse debate acadêmico é, parodoxalmente, perpetuar o debate, pois, no mesmo passo, em que mantém viva a retórica da indeterminação, cinde, definitivamente, as relações entre sujeitos, reflexão e ação.
- Desse modo, nunca chegamos a um consenso para a ação política, mas os programas podem ser reconvertidos em objeto de análises acadêmicas que financiam e justificam a permanência de determinadas áreas do conhecimento que tinham perdido sua importância política e econômica diante das novas formas de dominação do capitalismo mundial.
- Em outras palavras, o debate sobre as “cotas raciais” no Ensino Superior e a degeneração das políticas públicas, atacadas pelos discursos daqueles intelectuais, se constituem em novos nichos de mercado acadêmico.
- A disputa real que está sendo travada é pela hegemonia no espaço acadêmico das fontes de financiamento, restringidas na medida em que a intelectualidade negra foi conseguindo deslocar os recursos públicos para pesquisas voltadas para as políticas públicas e não mais para os tradicionais temas de pesquisa.
- Habituados, a antiga sistemática de fazer do negro objeto de pesquisa, tais intelectuais converteram a ação política dos movimentos sociais negros e indígenas em material de pesquisa.
- Qualquer reconhecimento de um aspecto positivo na ação política dos negros representaria uma diminuição do status acadêmico dos intlectuais contra as cotas. Logo, suas conclusões devem ser idênticas às premissas das quais partem.
[1] DUARTE, Evandro C. Piza. Criminologia & Racismo – Introdução à Criminologia Brasileira. Curitiba: Juruá, 2003. MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil. Belo Horizonte: Autentica, 2004. CARVALHO, José Jorge de. Inclusão Étnica e Racial no Brasil, a questão das cotas no Ensino Superior. São Paulo: Attar, 2006. PECAULT, Daniel. Os Intelectuais e a Política no Brasil. Entre o Povo e Nação. São Paulo: Ática. 1990. VAINFAS, Ronaldo. Ideologia e escravidão: os letrados e a sociedade escravista no Brasil Colonial. Petrópolis: Vozes, 1986.
[2] Para um debate sobre a essencialização das identidades veja-se: DUARTE, Evandro C. Piza (Org). GUELFI, Wanirley Pedroso. Cotas Raciais, Política Identitária e Reivindicação de Direitos. In: DUARTE, Evandro C. Piza. (Org.); SILVA, P.V.B. (Org.). Razões de Uma Política Afirmativa na Universidade Federal do Paraná. Juruá, 2007. v. 1, 245 p. HALL, Stuart. Da diáspora: Identidade e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
[3] Para tais intelectuais valeriam as críticas formuladas por CUPANI, Alberto. A Crítica do Positivismo e o Futuro da Filosofia. Florianópolis: Editora da UFSC. 1985.
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