O tema das cotas raciais incita a violência?
Sim. Nunca se ouviu tantas formas variadas de violência ao bom senso. É preciso ser surdo para não se sentir agredido.
Vejamos:
1) A exclusão dos negros é social não é racial. O que se quer dizer com essa afirmação? Se os negros são excluídos eles devem estar entre os mais pobres. A pobreza dos negros não é uma prova de que eles são excluidos porque são pobres, mas que são negros e excluídos. A constatação de que nascer negro é um fator que determina a mobilidade social (para cima e para baixo) de um indivíduo é moralmente desalentadora. De fato, um indivíduo pode sozinho deixar de ser pobre, mas um indivíduo negro nao pode sozinho mudar todo um sistema de preconceitos. Supor que a diferença pode ser atribuída à pobreza é reconfortante para muitos brancos e negros. Para uns, porque a descoberta do racismo levaria a uma espécie de desânimo nos projetos pessoais, e, para outros, porque o reconhecimento da existência do racismo imporia o dever moral de repensar qual a sua contribuição para o atual estado de coisas.
2) É preciso melhorar a escola pública, não adianta mudar o topo sem mudar a base. O que se pretende dizer quando se coloca a universidade no topo do sistema de ensino? A universidade é apenas um lugar de chegada dos "melhores"? A metáfora não explica qual é a função da universidade em relação ao sistema de ensino. Se pretendemos uma escola inclusiva, com professores capacitados para lidar com a diversidade, despidos de pré-julgamentos sobre o potencial de cada aluno e preocupados em transformar as práticas discriminatórias presentes na escola, qual deve ser o papel da universidade? Como pode a universidade ensinar algo que nao aprendeu?
3) É preciso melhorar na base, não adianta facilitar a entrada. É preciso chegar a um acordo simples sobre duas questões: Por que os negros não passam nos vestibulares? Os vestibulares escolhem sempre os melhores alunos? A resposta mais simples a primeira pergunta: porque os negros estudam, na sua maioria na escola pública. Mas por que os negros estão em minoria entre os alunos que estudaram em escola pública e são aprovados no vestibular? Porque o ensino público ou o privado estão alheios aos valores preconceituosos existentes na sociedade. Um jovem negro não luta apenas para ter uma formação adequada, ele deve lidar dia-a-dia com as expectativas negativas sobre sua capacidade. Ainda não agregamos à expressão “qualidade de ensino” o valor do respeito. A resposta à segunda pergunta depende do ponto de vista que se quer adotar. Os universitários não correspondem, na sua maioria, às expectativas dos professores quanto a sua formação prévia e ao seu empenho. Estão bem distantes do ideal que desejamos. Porém, os universitários que temos são substancialmente muito diferentes daqueles alunos que não passam nos vestibulares? A mera constatação do caráter restrito da rede de ensino superior permite sugerir que há candidatos tão qualificados quanto aqueles que estão na universidade. Enfim, os negros não passam porque não estudam, mas porque estão submetidos a diversos filtros de exclusão que criam barreiras ao seu desempenho.
4) As cotas raciais vão gerar mais preconceito.Você já conversou com universitários negros que construíram suas carreiras antes da implantação do sistema de cotas raciais? Inúmeros deles repetem histórias de discriminação nas universidades brasileiras, ou seja, o preconceito sempre esteve lá. Esses mesmos intelectuais falam de inúmeras situações em que foram silenciados, pois eram uma minoria e qualquer tentativa de denúncia era mal vista pelos próprios colegas. Muitos se dedicaram a construir o respeito com uma dedicação redobrada que fosse capaz de “compensar” o preconceito. Qual é a novidade? A novidade é que a maior quantidade de negros na universidade impede que os atos de discriminação sejam silenciados com tanta facilidade. Por óbvio que aqueles intelectuais que estão acostumados com a licenciosidade para exercitar o preconceito devem se sentir incomodados. De outra parte, muitos dos intelectuais negros que se mantiveram calados nutrem pelo sistema de cotas um sentimento ambíguo, pois o sistema desnuda as contradições e as estratégias que eles utilizaram até agora. Eles temem, provavelmente, perder a possibilidade de usar o argumento da competência num espaço que é avesso a presença de negros. No que devemos apostar? Na manutenção de uma retórica da exclusão? Ela mudou em decorrência da competência de inúmeros intelectuais negros brilhantes? Não. Os grandes intelectuais negros brasileiros somente foram tolerados pela universidade brasileira quando foram reconhecidos pela comunidade acadêmica internacional. Aplaudidos lá fora, suportados aqui. São as cotas raciais que aumentam o preconceito ou o preconceito que parece ficar mais evidente quando nós resolvemos prestar um pouco mais de atenção? Se há preconceito contra os negros, com ou sem cotas, isso é um problema dos negros? Manter os negros fora dos muros das universidades irá mudar o que aqueles que estão dentro da universidade pensam sobre a capacidade intelectual dos negros? A existência de preconceito na universidade é um bom motivo para negar aos negros o acesso ao ensino superior? É o preconceito que deve ser a medida para se garantir oportunidade para a população negra? O preconceito não aumenta, o que aumenta é o número de pessoas preconceituosas. Não se pode supor que o preconceito seja uma qualidade sem sujeito. A questão é: as pessoas têm o direito de manifestar com maior intensidade seu preconceito por que há negros que utilizam o sistema de cotas? Quem responde afirmativamente a essa pergunta acredita que os negros são inferiores em direitos e em capacidade intelectual.
Os negros serão discriminados nas universidades porque são cotistasCom os devidos pingos nos is, os negros poderão ser discriminados nas universidades porque são negros. Quem vive o ambiente universitário sabe que não há consenso sobre inúmeras decisões administrativas que são tomadas. Porém, essa mesma experiência confirma o fato de que não se costuma demonstrar a sua desaprovação com tal ou qual medida com muita liberalidade. Há regras sociais, muitas delas típicas do espaço acadêmico, que obrigam as pessoas ao respeito pela opinião alheia e aos demais interlocutores. Quando alguém manifesta sua opinião sem respeitar tais regras é preciso questionar: Por qual razão tal pessoa se sente tão livre para emitir uma opinião tão pouco fundamentada sobre uma questão tão relevante? Há uma forte suspeita de que tal indivíduo ou se sente ameaçado por uma decisão ou despreza aqueles que emitem opinião diversa. Quiçá, ambos. Voltamos ao ponto de partida: Devemos supor que tais pessoas estão corretas? Devemos excluir que é ofendido porque há alguém que está disposto a ser ofensor? Tais papéis sociais são inevitáveis?
Outra questão precisa ser debatida nessa bondade de não ver os negros discriminados. A entrada na universidade impõe novas experiências e tensões pessoais. Nenhum negro é obrigado a entrar pelo sistema de cotas ou a entrar na universidade. Trata-se de um projeto pessoal. Porém, o fato de estar fora da universidade não impede que esse mesmo negro seja discriminado. É preciso prestar muita atenção nessa preocupação com o bem estar dos negros. Não há uma denuncia generalizada de que jovens negros estão sendo discriminados trabalhando como empacotadores em supermercados, mas tudo muda quando eles podem ser discriminados estudando num curso de medicina. Não é estranho? Quem deve escolher o novo universo de experiências positivas e negativas que se deve enfrentar? A diferença entre a primeira e a segunda situação não está na possibilidade de discriminação, mas no lugar que o jovem negro ocupa nas relações sociais e na expectativa que se tem sobre o desempenho dos negros. O paternalismo, dizendo proteger, julga que os negros estão protegidos não enfrentando o desafio de uma nova posição social. Os negros empacotadores não lhes ameaçam, os negros universitários sim. Por que isso ocorre?